Reminiscências e Reflexões

Reminiscências e Reflexões

Photo copyright © Robert Hinshaw

No meio de uma refeição num chique pub inglês, alguém – Rafael, eu acho –fez os primeiros movimentos em direção ao que viria a ser a psicologia arquetípica. Rafael estava empolgado sobre como o problema da psicologia e do pensamento ocidental, em geral, era o monoteísmo. Esta noção pegou fogo e nós prosseguimos a tarde toda bebendo vinho, destruindo o monoteísmo e intuindo como as coisas podiam ser diferentes num mundo pagão mais politeísta. Como era com estas e muitas outras discussões deste tipo, as conversas quase diárias com vinho durante o jantar ou o almoço, dois, três ou quatro de nós, ou Jim com Adolf Guggenbühl e depois nos relatando a discussão, ou Rafael, entre todos nós, as discussões eram reportadas e ficávamos animados ao fantasiar este pensamento que se desenvolvia. Para mim era fascinante aprender os imprevistos e reviravoltas, testemunhar os saltos ao inesperado, que realmente eram especialidades de Jim desde o começo. Vejam, Rafael – eu percebi enquanto escrevia isto, eu entro em muitas comparações entre Rafael e Jim porque a diferença de suas cabeças é interessante pra mim – sempre começava com o inesperado, como politeísmo, e depois passava rapidamente pelo tema. Jim geralmente começava com o mais comum, normalmente acadêmico – você vê isso em seus escritos, certamente nas palestras de Eranos –, ele começa com um layout muito acadêmico e depois encontra um lugar onde se volta a algo, vira-o de ponta cabeça e então desprende-se e sai pulando. Era tudo bastante inebriante, bastante empolgante para alguém, naquele momento com 25 anos de idade. Na verdade ainda é empolgante para alguém com 49 anos.

Talvez porque já que as premissas desta nova psicologia estavam tomando forma, as diferenças de personalidade e atitude entre nossos líderes – Jim e Rafael – ficavam mais claras também. Ainda que, para falar a verdade, ache que a maioria de nós nos seminários não sabíamos de verdade que premissas eram estas, ou o que queriam exatamente dizer. Eram máximas vagas que eram ouvidas toda hora como “fique com a imagem” – máxima de Rafael – ou “salve o fenômeno” que era a máxima de Jim. Mas o que era isso? Nós tínhamos uma ideia muito mais clara do que não era a psicologia arquetípica, e por isso o aprendizado foi por um tipo de via negativa. Você era golpeado pela ideia de “ficar” de Rafael, digamos assim, se entendesse errado, e então tentava alguma outra coisa. A psicologia arquetípica não era monoteísta, não era de um ego pessoal, não era transcendente, não era estrutural, não era linear, não era cristã, não era normal, não era medíocre, não era para melhorar, não era para se equilibrar. E qualquer um que fosse, ou inadvertidamente expressasse qualquer um destes valores e pressuposições mais tradicionais, era advertido aos gritos e usado como contraste para o resto de nós. Este tipo de pedagogia não era para os fracos.

[Apresentado no Festival de Psicologia Arquetípica de Notre Dame, 7-12 de Julho de 1992]

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Graduada pelo C.G. Jung-Institut Zürich, é Ph.D. e pioneira da Psicologia Arquetípica ao lado de Rafael López-Pedraza e James Hillman, com quem foi casada por vinte anos. Foi a primeira scholar em residência no Pacifica Graduate Institute, na Califórnia. Palestrante internacional, foi presidente da New England Society e da Inter-Regional Society of Jungian Analysts. Autora de "O Corpo Sutil de Eco: Contribuições para uma Psicologia Arquetípica", tem prática clínica em West Bath, Maine.

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