Por que os deuses castigam? Apolo castigado

Por que os deuses castigam? Apolo castigado

Photo copyright © Carlos Pertuis - A Barca do Sol (02/12/1976) - Lápis Cera sobre papel (33 x 48 cm) - Acervo Museu de Imagens do Inconsciente

Ao se propor uma resposta psicológica à pergunta “Por que os deuses castigam?”, deve-se ter em mente que a análise psíquica da mitologia grega implica uma perspectiva distinta de outros exames feitos ao tema, que investigam esse relato do ponto de vista da lingüística, política, história, crítica literária, entre outros campos; além disso, não é razoável procurar nesta argumentação uma descrição dos acontecimentos vividos pelas divindades e suas múltiplas variantes, tarefa realizada com erudição por grandes autores. O foco naquilo que envolve a psique do mito pressupõe que se possa deslocar o interesse da narrativa mítica para suas imagens, compondo um tipo de leitura que se aproxima de sua gênese anímica, e portanto, que se impõe como uma espécie de método imagético per se. Este modo de compreensão aproximaria o analista do processo psíquico presente no relato mítico – respeitando o que, para a psicologia analítica de Carl Gustav Jung, seria a essência desse processo: “uma imagem e um imaginar” (Jung, 1991: 889).

Uma reflexão desse tipo, similar a um “pensamento mitológico”, diferiria qualitativamente de grande parte das leituras de cunho psicológico do mito, cujo foco repousa na interpretação de sua narrativa e o uso de ferramentas como a amplificação – apartada do contexto da imagem e de sua emoção –, e os dicionários de símbolos – editados com a intenção de corroborar um argumento particular. A adoção de uma perspectiva menos intelectiva, que assegure à imagem sua integridade, não demandaria o esforço de abstração coagulado pelo símbolo, pois o que se pretende explorar é a própria imagem que se apresenta bem definida em sua singularidade.

Por esta razão, para realizar esta leitura é necessário que se empreenda a passagem da concepção de símbolo, para uma alternativa que preserve a precisão e a sutileza únicas de cada imagem. Tendo como norte este pressuposto, o modo mais interessante de abordagem imaginal se dá por meio do uso da metáfora. Termo oriundo do grego metaphorá, tem como principal significado “transposição”, o que aponta neste caso para um trânsito livre e de mão-dupla entre a imagem e o significado. Uma via inteligente para se escapar dos perigos da literalização simbólica, interpretação de mão única que tende à perda do fenômeno ou sua redução.

Por que os deuses castigam? Apolo castigado




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Graduado em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP). Especialista em Psicologia Analítica pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Diploma Candidate no C.G. Jung-Institut Zürich. Prática clínica em Fribourg, Suíça.

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