O Fim do Espaço Psíquico

O Fim do Espaço Psíquico

Photo copyright © Stanley Kubrick - 2001: A Space Odyssey

Quando pensei no tema deste simpósio, e também onde Jung e a psicologia analítica estavam na preocupação com nossas relações com nosso planeta, ou em outras palavras, qual poderia ser sua grande contribuição para o pensamento ecológico, esta ideia de que não temos as rédeas de nada em nossas vidas me pareceu central. É com esta ideia profunda e essencial, mas também de difícil assimilação, que Jung recoloca a cultura humana numa posição inteiramente participativa, retirando seu selo auto-declarado de protagonista. Nela, não há como o ser humano ser dominador, pois ele só existe porque está dominado. Entendam, nesta condição, qualquer manifestação humana não é humana, é divina. Tudo sobre o que eu e vocês estamos refletindo neste momento parte de um princípio maior que qualquer uma de nossas intenções pessoais, ainda que nos pareça tão normal pegar nossos cadernos e canetas e vir à um simpósio com a clara e consciente intenção de discutir e aprender. Qualquer ato, impulso ou pensamento, qualquer fantasia ou excitamento, mesmo que intensamente e individualmente estimulante – mesmo até que você possa justificá-lo com toda a sorte de narrativas sobre como sua vida tem sido um caminho realmente inédito – não pertence a nós e nunca pertencerá. Na mais divina das danças imaginadas por Jung, somos, como seres humanos, o fim de um longo impulso divino; um apêndice mais concreto, mais sedimentado, o local final da expressão de reverberações que já existem e percorrem o universo. “Não é a psique que está no homem, mas o homem que está na psique“, diria Jung.

Esta famosa frase pode parecer uma conclusão óbvia para os que conhecem suas principais ideias, mas a pergunta que me faço é se ela realmente produz os efeitos que pretende, se realmente conseguimos compreender seu alcance prático em nossas vidas, ou se simplesmente a assimilamos e seguimos com nossas atividades sem maiores implicações. Com ela, Jung realmente parece tentar nos alertar de nossa condição mais essencial, e a que ele considerava extremamente perigosa, a de que somos primordialmente inconscientes. Mas se isso é verdade, porque, então, preferimos nos agarrar às pequenas bolhas com vidas curtas e cultuá-las como a parte mais importante da história que contamos de nós mesmos? Porque achamos que nossas pequenas e limitadas reflexões realmente descrevem tudo o que nos tornamos?

[Palestra apresentada no XXII Simpósio Regional do Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC) – O Lamento da Terra, em 28 de novembro de 2015]

O Fim do Espaço Psíquico




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Graduado em Psicologia pela Universidade São Francisco (USF). Mestre em Psicologia Profunda com ênfase em Estudos Junguianos e Arquetípicos pelo Pacifica Graduate Institute - EUA. Professor de Acupuntura e Aikido. Prática clínica em Campinas e São Paulo.

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